A cassação do ex-vereador Gilvani o Gringo encerrou um capítulo político tumultuado na Câmara de Porto Alegre. No entanto, a principal pergunta permanece sem resposta: a CPI do Dmae serviu apenas para cassar o vereador ou também para enfrentar quem, segundo ele, operava o esquema dentro do poder público?
Convocado como testemunha, Gringo admitiu que, em 2015, ao vencer uma licitação do antigo DEP, passou a sofrer pressão direta de um servidor. Esse agente teria condicionado o pagamento dos serviços ao repasse de valores ilícitos. Segundo o relato, o acordo previa que o servidor ficaria com metade das duas primeiras parcelas e 25 por cento das seguintes. O ex-vereador também relatou reuniões dentro do próprio órgão, manipulação de planilhas, redução indevida de caminhões e medições fraudulentas. As ruas anotadas nos documentos não coincidiam com aquelas que realmente recebiam o serviço, e sequer havia emissão de MTR para o descarte da água.
A estrutura descrita por ele não foi pequena. A ação criminal que se originou das denúncias transformou nove pessoas em rés, entre servidores e empresários. O processo segue em sigilo na 1º Vara Criminal do Foro Central. A Justiça estima que o prejuízo aos cofres da Capital tenha chegado a R$ 37 milhões.
O contraste é inevitável. Gringo foi cassado, exposto e retirado do mandato. Já os agentes públicos citados por ele seguem sem qualquer resposta pública. A investigação interna do DEP, iniciada após a confissão, levou o ex-vereador a reunir documentos e registros dos serviços prestados, que estão hoje anexados ao processo criminal.
A pergunta que ecoa é simples e direta: a CPI do Dmae cumpriu seu papel ou apenas produziu um culpado conveniente? Porque, se há corruptores, há também corruptos. E estes ainda não enfrentaram o mesmo rigor.
CPI do Dmae só serviu para cassar o Gringo? Mas e os corruptos que cobravam propina?
Por J. Saraiva
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