O Brasil nasceu diferente, meio improvisado, sempre com aquele jeitinho que ninguém mais no mundo entende. Logo na largada, ainda colônia, vivemos talvez a primeira grande virada inesperada da nossa história. Quando Napoleão decidiu tocar o terror na Europa, a família real portuguesa fez as malas às pressas, pegou o primeiro “navio-uber” disponível e veio se esconder no Brasil. Resultado, Portugal passou a ser governado daqui, à distância, quase como se D. João tivesse inventado o home office e a videoconferência séculos antes do Zoom. Era o rei de Portugal governando o próprio país de forma virtual, direto da filial tropical.
Quando tudo acalmou, D. João VI bateu em retirada para Lisboa. Deixou por aqui o filho, D. Pedro, que não pensou duas vezes e proclamou a independência. Na prática, o Brasil conseguiu a façanha de se libertar de Portugal com a ajuda do príncipe português. Dom João perdeu, entre aspas, o Brasil sem um tiro, sem guerra, apenas porque o herdeiro decidiu trocar de lado. Coisas que só acontecem por aqui.
A ironia continua quando lembramos que fomos o último país das Américas a abolir a escravidão, sempre atrasados naquilo que o resto do continente já tinha enfrentado. Enquanto o mundo discutia liberdade, o Brasil seguia preso aos seus próprios nós históricos. Um país que caminha, mas sempre olhando para trás.
E chegamos ao presente, esse capítulo ainda mais surreal. Vivemos divididos entre duas torcidas organizadas, esquerda e direita. De um lado, Lula, que foi preso por corrupção, saiu da cadeia, voltou ao palco político e ainda venceu as eleições. De outro, Bolsonaro, agora preso junto com generais respeitados e condecorados, aguardando a cena dos próximos capítulos, porque ninguém duvida de que poderá voltar como candidato. Somos possivelmente o único país onde dois presidentes passaram pela prisão e continuam disputando narrativas como se estivessem em campanha permanente. Amados e odiados, cada um por sua metade do país.
O Brasil sempre um terreno fértil para contradições. Punimos e absolvemos com a mesma facilidade. Reescrevemos fatos conforme o humor nacional. Um país que, desde a origem, oscila entre a ordem e a confusão, entre a ousadia e a teimosia, entre fazer história e repetir os mesmos erros.
Talvez o grande desafio seja justamente romper esse ciclo pitoresco que nos acompanha desde a chegada da corte até o cenário político de hoje. Enquanto isso não acontece, seguimos sendo o Brasil de sempre, cheio de ironias, surpresas e paradoxos que fazem deste lugar um capítulo à parte no mundo.
Brasil dos paradoxos
Por J. Saraiva
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